Trem bala uma promessa antiga, mas ainda não saio.
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| Um trem |
Luterano-religar:
As coisas, no mundo, são diferentes. Primeiro, faz-se um estudo das necessidades de transporte de pessoas e mercadorias. Avalia-se então que tipo de transporte será mais adequado, dos pontos de vista técnico, econômico, ambiental: hidroviário, rodoviário, aéreo, ferroviário, uma combinação de alguns deles. Não há possibilidade de transportar minérios por via aérea, por exemplo.
Aqui no Brasil é mais simples: alguém tem uma idéia, uma obsessão, e poder para tentar realizá-la. Bola pra frente: vamos direto de trem-bala (um modo de transporte que, por exemplo, não existe nos Estados Unidos). Um bom trem convencional, que rode a cem, cento e poucos quilômetros por hora, não serve: tem de correr muito, que esta é a nossa Pátria Grande, abençoada por Deus e bonita por natureza. Preço? Besteira: a gente acaba conseguindo pagar. E, como nossos meios de comunicação estão entre os mais bonzinhos do mundo, ninguém questiona tecnologia, oportunidade, conveniência, custo. Pensar em custo é coisa de pobre. E a imprensa, como não é pobre, não perde tempo com mesquinharias.
É por isso que temos uma ferrovia que transporta minério em alta velocidade – e o minério, este colunista pode assegurar, é sossegadíssimo, não tem a menor pressa para chegar a seu destino. Alta velocidade significa raios de curva maiores, desníveis mais suaves, trilhos e dormentes especiais, preços bem mais altos. É por isso que queremos o trem-bala sem saber se o trem-bala é mesmo a melhor solução para ligar São Paulo ao Rio.
Mas, se fosse só isso, até que seria menos ruim. Duro é saber que na China estão construindo uma ferrovia moderníssima, ligando Qinghai ao Tibete, furando as montanhas do Himalaia, e a previsão de custos é de uns 10%, ou pouco mais, do nosso tal trem-bala, com traçado dez vezes maior. A maior parte da linha já foi concluída e funciona muito bem. Este colunista certamente fez uma pesquisa falha, mas não encontrou grandes matérias em nossa imprensa sobre a tal ferrovia – um tema do mais alto interesse num país que está perto de gastar mais de US$ 30 bilhões no trem-bala. Saiu num portal de Internet, há tempos, e em revistas técnicas, destinadas a quem trabalha no ramo. Nada para o grande público.
A ferrovia chinesa atravessa montanhas do Himalaia a cinco mil metros de altitude – os operários tiveram de usar roupas especiais, com máscaras de oxigênio e câmaras pressurizadas. Para permitir a migração dos antílopes, boa parte dos trilhos é elevada. Cerca de 25% do comprimento da ferrovia se apóia em solos congelados no inverno e derretidos no verão, o que gera problemas de contração e dilatação. E o custo? Incluindo a parte que ainda será gasta, US$ 4,1 bilhão.
Logística, transporte, modais, todos esses são temas áridos para o noticiário geral. Mas 30 bilhões de dólares não são um tema árido. Por que deixar a discussão para mais tarde, quando o dinheiro tiver sido gasto e os eventuais erros já não puderem ser corrigidos?
Ah, antes que este colunista se esqueça, a obra ficou pronta um ano antes do prazo previsto.
autor: carlos@brickmann.com.br
extraído:http://www.incorporativa.com.br/mostranews.php?id=6724




