Após a confissão de Pedro entramos na segunda seção, ou, segundo ato do drama do livro de Marcos. Conforme Hooker:
Ora, uma coisa intrigante em Marcos é a existência de um momento decisivo muito claro na narrativa, no meio do livro, na cena que ocorre perto de Cesaréia de Felipe, quando Pedro identifica Jesus como Messias. A partir daí, a natureza da narrativa muda de forma dramática […]O momento do reconhecimento em Cesaréia de Felipe introduz um novo tema que domina a segunda metade do Evangelho: a inevitabilidade da cruz[1](1997, p. 16).
Segundo Hooker, nesse “segundo ato” a história muda de forma dramática e o novo tema que se nos apresenta é a caminhada de Jesus para a cruz. É interessante notar que após a confissão de Pedro, o tema subseqüente é Jesus predizendo sua morte e ressurreição (Mc 8.31), algo que vai ocorrer outras vezes nesse Evangelho.
Para Delorme, não há aqui uma mudança de cenário, mas sim um novo ensinamento aos discípulos: O caminho para seguir Jesus. Delorme vai dizer:
A cada vez, esses anúncios são seguidos de um ensinamento dirigido aos discípulos, intimamente ligado ao ensinamento sobre Jesus. Não há mudança de cenário […] Esses ensinamentos se dirigem aos que seguem a Jesus ou querem segui-lo. O mistério da paixão-ressurreição não é então ensinado unicamente por si mesmo, como uma revelação da missão de Jesus, mas também para anunciar aos discípulos o modo de segui-lo (1985, p. 92).
Segundo Delorme, ao mesmo tempo em que Jesus revela sua obra redentora por meio de sua morte e ressurreição, Ele está revelando qual o caminho para aqueles que o querem segui-lo, o caminho da cruz. Aquele que deseja seguir a Jesus deve abandonar tudo, sua vida, suas convicções, etc. Seguir Jesus é tomar parte na sua cruz.
Outro aspecto importante no anúncio de Jesus em sua morte e ressurreição é a revelação da obra e dos desígnios de Deus. Na primeira parte do drama Jesus revelou aos seus discípulos quem Ele era e qual a sua relação com o reino de Deus. Agora, ao anunciar sua morte e ressurreição, Jesus nos revela o meio pelo qual o reino de Deus se mostrará de maneira clara.
Podemos ver isso de maneira mais clara na transfiguração , onde Jesus revela de maneira antecipada, a glória da ressurreição. Conforme Delorme:
Nas narrativas da transfiguração encontramos de novo as três testemunhas da ressurreição da filha de Jairo: Pedro, Tiago e João. Elas reaparecerão ainda no Getsêmani. Há uma relação entre os três quadros. O primeiro manifesta o poder de Jesus sobre a morte: a transfiguração é uma antecipação da glória da ressurreição: a agonia, em contraste total, mostra o modo pelo qual Jesus caminha para a glória: aceitando plenamente entrar nos desígnios Deus (1985, p.97).
E completa dizendo que “a transfiguração aparece como manifestação antecipada da glória do Filho do Homem.”[2]É nessa perspectiva que devemos olhar para esse anúncio da morte e ressurreição de Jesus. É nessa perspectiva que Jesus ensina seus discípulos. É necessário que Jesus passe pelo caminho da cruz. A glória do reino de Deus só se revelará de maneira completa pela morte e ressurreição de Jesus, é essa glória que Jesus manifesta na transfiguração.
[1] Até então, Marcos concentrou-se no impacto que Jesus causava nas multidões com seu ensino competente e seus milagres, na resposta dos discípulos e na hostilidade das autoridades religiosas. Daí para frente, o enfoque é no sofrimento próximo de Jesus; há poucos milagres, e seu ensinamento volta-se principalmente para seus fiéis seguidores e diz respeito à natureza do discipulado. (Hooker, 1997).
[2] DELORME, op. cit., p.97.




