Ministério em Perspectiva


Que desafio é cumprir os propósitos de Deus através da administração pública dos meios da graça! Que emoção é lidar com o poder misterioso de Deus que age na água, no pão, no vinho e nos vasos de barro! Não foi sem razão que algumas pessoas chamaram o ministério pastoral como o mais alto ofício! O candidato honesto ao ofício pastoral sabe que o ofício, e não ele mesmo deveria estar no pedestal. Mesmo antes de servir no ministério, ele sente suas inadequações pessoais. Ele contempla tanto as possibilidades ilimitadas do ministério, como as numerosas obrigações que o ministério colocará sobre ele. Ele é simultaneamente esmagado e encorajado pela amplidão do ministério pastoral, que envolve:
Providenciar um ministério que evidencie o querigma e a escatologia;

1.    Atender aos cuidados próprios das congregações contemporâneas;

2.    Combinar uma interpretação da revelação de Deus para o homem com  modos de pensar atuais;

3.    Providenciar cuidado pastoral terapêutico;

4.    Saber onde procurar recursos práticos e teóricos tanto imediatos como de longo alcance; e habilmente levar uma sabedoria teológica e perspicaz para as vidas das pessoas que procuram ter em mente que elas estão no mundo embora não sejam dele.

Num certo sentido, há pouca coisa, se é que há alguma coisa nova nos cânones da teologia pastoral. Pastores sempre foram incumbidos de aplicar os meios da graça, nas modalidades corporativa e individual, de acordo com as necessidades e condições do povo de Deus confiado aos seus cuidados. O que há de novo é que certos aspectos adquiriram uma necessidade maior de ser trabalhados. Parece que a igreja e seu povo estão se tornando mais mundanos; valores seculares, prioridades e padrões de sucesso ou fracasso estão sendo mais e mais adotados pela igreja. Pessoas de dentro e de fora da igreja crescentemente dispensam a igreja com a idéia de que ela não tem qualquer relevância para orientar os complexos assuntos éticos e morais que confrontam a sociedade – muito menos no que se refere às últimas questões a respeito de vida e morte, pecado, culpa e perdão. O mundo, ao que parece, está estabelecendo a agenda.
A aceitação do mundo no que se refere ao aborto em demanda, o direito de praticar a homossexualidade, a poligamia em série e semelhantes costumes relativos a moralidade não são apenas aprovados, mas abertamente apoiados por certas comunidades dentro da família da igreja. E as pessoas encontram nesta ambivalência uma desculpa para este comportamento, que elas sabem, no entanto, estar em desacordo com a clara Palavra e vontade de Deus.
A igreja moderna também está sendo afetada pela mudança no papel das mulheres com o efeito concomitante disso sendo sentido sobre a estabilidade do lar, sobre a educação da criança e sobre os papéis de esposos e esposas.
A crescente neutralidade moral causa grande perplexidade, especialmente, com respeito às questões que envolvem vida e sexualidade humana. As questões atinentes à vida são muitas. No tocante ao começo da vida, abortos e as complicações e o mau emprego das tecnologias, tais como a amniocêntese, confrontam o crente. Com relação ao final da vida, mais e mais a aceitação da eutanásia está sendo estimulada. O direito de viver e o direito de morrer, que não podem ser consideradas questões simples, são publicamente debatidas.
Sobre as questões da sexualidade humana, o que a tecnologia reprodutiva é atualmente capaz de fazer simplesmente deixa a mente humana perplexa. Diante do pastor e do seu povo, estão práticas tais como inseminação artificial, fertilização in vitro, mãe de aluguel, determinação do sexo, manipulação genética e clonagem.
Acima de tudo, o avanço da tecnologia evidencia uma sociedade ricamente dotada e altamente abençoada. Em geral, com exceção de uma pequena porcentagem da população que realmente sofre profunda pobreza, as pessoas nunca tinham sido abundantemente abençoadas com dádivas e riquezas materiais. É uma sociedade tão impressionada com suas próprias capacidades que acredita que não há problemas tão grandes que ela não possa resolver. Ao mesmo tempo, a sociedade está à deriva e errante. Ela está tão insegura que busca resposta para as últimas questões em fontes – mesmo sendo fontes apenas pretensamente espirituais – que nunca podem prover as soluções que sejam de algum modo duradouras ou significativas. O povo de Deus, independente da idade, é tentado pela Nova Era, pela astrologia, pelas religiões e filosofias orientais, por cultos pseudo-cristãos, por várias seitas que incorporam em seus ensinos misticismo, reencarnação e espiritismo.
As pessoas de hoje sentem uma lacuna de objetivo e significado para a vida. Como alguém ainda pode explicar o mal uso de substâncias, o abuso de membros da família, infidelidade conjugal e um divórcio tão predominante que já se tornou poligamia em série? Nós somos um povo solitário, aborrecido, ansioso e oprimido pela culpa.
Ser bíblico e pessoal – estas duas palavras resumem o ministério pastoral. John R. W. Stott, em seu livro Between Two Worlds (“Entre Dois Mundos”), diz que “um verdadeiro sermão faz uma ponte sobre o abismo que separa o mundo bíblico do mundo moderno e deve ser igualmente alicerçado em ambos”.  O que ele diz sobre a tarefa de pregar não é menos verdadeiro no que se refere ao ministério pastoral em geral.
O novato pode imaginar o tempo em que ele alcançará o pastorado. O veterano sabe que o ministério pastoral sempre significa lutar, nunca alcançar; ele se alegra e está inteiramente comprometido com a luta diária e contínua com a qual ele cresce pessoalmente na fé. Ele pode ser atribulado, porém não angustiado; perplexo, porém não desanimado; perseguido, porém não desamparado; abatido, porém não destruído (2Co 4.7-9).