Cuidar de si para depois cuidar do próximo no Ministério Pastoral
Projeto de pesquisa
Cuidar de si |
Conforme as Escrituras, a figura do pastor e o próprio ministério do aconselhamento são dádivas de Deus para sua Igreja (Ef 4.11; Cl 3.15). Há, portanto, a possibilidade de grandes perdas em se deixar o pastor-conselheiro de lado em momentos tão cruciais do ciclo da vida. Então, é importante a busca da restauração da confiança no papel do pastor e do aconselhamento pastoral.
Por causa de ações pouco ou mal refletidas é que muitos cristãos passaram a fugir de pastores, eles deixaram de ser vistos como homens sábios, cheios de palavras de aconselhamento para os momentos de grandes perplexidades da vida. Assim, pessoas passaram a fugir, escondendo-se até o ponto de procurarem outros conselhos, continuando, muitas vezes, a sofrer por estarem fora do conselho de Deus.
O cerne da poimênica e do aconselhamento pastoral para as pessoas de nossos dias pode consistir em ajudá-las a encontrar sua rocha […] em ajudá-las a centrar suas vidas no mistério que chamamos de Deus. Se os aconselhadores pastorais não estão em condições de oferecer tal ajuda, seus clientes poderão, no fim, sentir que se lhes ofereceu uma pedra no lugar de pão. (BARRY, 1977, p. 5-6).
Isso leva a dois aspectos muito importantes: primeiro, o conselheiro cristão precisa ter uma clareza de seu papel espiritual; segundo, o conselheiro cristão deve se reocupar com sua qualificação pessoal para o exercício do ministério. Tanto a falta de firmeza no reconhecimento do seu próprio papel, como o despreparo e a desqualificação para o ministério do aconselhamento pastoral são fatores que levam as pessoas a se afastarem dos pastores na hora de uma grande necessidade espiritual, como tem-se observado, principalmente, em momentos de queda moral.
“[…] o ministério amplo e inclusivo de curas e crescimento mútuos de uma congregação e de sua comunidade, durante todo o ciclo da vida. Aconselhamento pastoral, que constitui uma dimensão da poimênica, é a utilização de uma variedade de métodos de cura (terapêuticos) para ajudar as pessoas a lidar com seus problemas e crises de uma forma mais conducente ao crescimento e, assim, a experimentar a cura de seu quebrantamento”. CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento Pastoral; modelo centrado em libertação e crescimento. 4. ed. São Leopoldo: EST/Sinodal, 2007. p. 25.
Para Lutero, a cruz de Cristo é o lugar da revelação de Deus e, paradoxalmente, seu sofrimento na cruz é lugar de se ocultar. Ao ocultar-se na cruz, Deus paradoxalmente se revela, ou seja, revela “humanidade, debilidade, tolice”, ocultando sua divindade, glória, majestade. Assim, Deus se visibilizou ao se ocultar e somente ao se ocultar, se visibilizou. A cruz é, então, “máscara” ou “véu” utilizado para sua autorrevelação. LUTERO, Martinho. O Debate de Heidelberg. Obras Selecionadas. São Leopoldo: Sinodal; Porto Alegre: Concórdia, 1987. v. 1, p. 49; LOEWENICH, Walther von. A teologia da cruz de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1988. p. 22-25.
Cf. LOEWENICH, 1988, p. 36. Lutero, evocando o palavra de Cristo, afi rma em Missa e Ordem do Culto Alemão: “[…] que ninguém se julgue sábio demais para essa brincadeira de criança. Para treinar pessoas, Cristo teve que tornar-se pessoa humana. Se queremos treinar crianças, temos que nos tornar crianças com elas. Queira Deus que essa brincadeira de criança seja amplamente praticada. Em pouco tempo teríamos um grande tesouro de pessoas cristãs, e teríamos almas ricas na Escritura e no conhecimento de Deus […].” LUTERO, Martinho. Missa e Ordem do Culto Alemão. In: Pelo Evangelho de Cristo. Porto Alegre: Concórdia; São Leopoldo: Sinodal, 1984. p. 223.
O pensamento de Lutero oferece grande contribuição para o aconselhamento pastoral. Em primeiro lugar, não permite a manipulação de Deus através de “verdades” pessoais do próprio conselheiro. A exemplo de Deus que se esvazia em Cristo para se comunicar e oferecer a salvação, cabe ao conselheiro despojar-se de seus preconceitos e verdades e, em fé humilde, postar-se como servo, mensageiro, intermediador no processo de cuidado, cura, poimênica. Finalmente, cabe uma postura de humildade do conselheiro perante o aconselhando, considerando sempre que atrás das falas, gestos, olhares pode estar se ocultando uma pessoa que não está conseguindo se dar a conhecer como desejaria ou precisaria. Portanto, a exemplo do alerta de Lutero a respeito de Deus, o conselheiro não pode tornar o aconselhando um objeto de sua poimênica.[1]
A poimênica e o aconselhamento podem ser formas de comunicar o Evangelho na medida em que ajudam essas pessoas a abrir-se para um relacionamento curativo. Enquanto não tiverem experimentado amor imerecido e aceitador num relacionamento
humano, o Evangelho não pode tornar-se uma realidade viva para elas. Enquanto não tiverem sido atingidas por aceitação solícita (que é o correlativo humano, sempre limitado, da graça de Deus) num encontro de pessoa para pessoa, a boa-nova da mensagem cristã não pode tornar-se uma realidade experimentada e libertadora para elas. Relacionamentos de ajuda são lugares onde pode ocorrer essa encarnação da graça – limitada e fragmentária, porém transformadora.[2]
Para fins de aconselhamento pastoral, Gadamer lembra que esse há que ser profundamente dialogal (e não informativo de verdades!). Somente assim o aconselhando perceberá que a palavra da salvação é palavra para ele (e para mim!). Gadamer também nos lembra que o ser humano é finito, portanto, não pode apropriar-se da verdade absoluta, mas sim ser envolvido por ela (Deus), que, em Cristo, se coloca em diálogo com a humanidade. Apropriar-se da verdade absoluta, reduzindo-a a códigos prontos e fechados, carregados não raramente por preconceitos antievangélicos, não somente implica a tentativa de manipulação de Deus, mas também a própria negação da finitude humana, assumindo o lugar de Deus. Se Deus se apresenta de forma dialogal em Cristo, o aconselhamento somente pode ter essa dimensão, jamais um caráter de informação e despejo de verdades desencarnadas e opressoras com roupagens bíblicas.
O apóstolo Paulo afirma: “Não que por nós mesmos sejamos capazes de pensar alguma cousa, como se partisse de nós; pelo contrário, a nossa suficiência vem de Deus, o qual nos habitou para sermos ministros de uma nova aliança, não da letra, mas do espírito; porque a letra mata, mas o espírito vivifica” (2Co 3.5s). Assim como a letra mata o espírito, a intolerância mata a verdade. Boff caracteriza bem:
Quem se sente portador de uma verdade absoluta não pode tolerar outra verdade, e seu destino é a intolerância. E a intolerância gera o desprezo do outro, e do desprezo, a agressividade, e a agressividade, a guerra contra o erro a ser combatido e exterminado.[3]
Isso somente pode ocorrer se o próprio conselheiro perceber que precisará antes ser liberto de seus preconceitos, estar consciente de sua própria finitude e da finitude da letra. Por isso o conselheiro não poderá somente olhar para os olhos do aconselhando, como um objeto numa posição inferior a ser interpretado. É também necessário olhar junto com o aconselhando para frente, para a infinitude, para Deus, e trilhar o caminho de fé e fé. Assim, ambos perceberão que o aconselhamento pastoral é lugar de reconhecimento da própria finitude, de forma que ambos somente podem orar:
Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos, nem os vossos caminhos os meus caminhos, diz o Senhor. Porque assim como os céus são mais altos do que a terra, assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos, e os meus pensamentos mais altos do que os vossos pensamentos (Isaías 55.8-9).
Sobre a importância da relação com o outro na temática do cuidado de si Foucault diz:
O cuidado de si é ético em si mesmo; mas ele implica em relações complexas com os outros, na medida onde esse ethos de liberdade é também uma maneira de cuidar dos outros; eis porque é importante para um homem livre que se conduz como se deve, saber governar sua mulher, seus filhos, sua casa. É aí também a arte de governar. O ethos envolve uma relação com os outros na medida onde cuidar de si possibilita ocupar, na cidade, na comunidade, ou nas relações interindividuais, o lugar que convém; seja para exercer a magistratura, ou para ter relações de amizade. E mais, cuidar de si implica ainda a relação com o outro na
medida em que, para cuidar bem de si é necessário escutar as lições do mestre. Ora, é necessário um guia, um conselheiro, um amigo, qualquer um que lhe diga a verdade. Assim, a questão das relações com os outros está presente ao longo de todo o desenvolvimento do cuidado de si (FOUCAULT, 1994, pp. 714-15).
Referências bibliográficas
BOFF, Leonardo. Fundamentalismo; a globalização e o futuro da humanidade. Rio de Janeiro: Sextante, 2002.
CLINEBELL, Howard J. Aconselhamento Pastoral; modelo centrado em libertação e crescimento. 4. ed. São Leopoldo: EST/Sinodal, 2007.
LOEWENICH, Walther von. A teologia da cruz de Lutero. São Leopoldo: Sinodal, 1988.
SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. Aconselhamento Pastoral. In: ______. (Org.). Teologia Prática no contexto da América Latina. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: ASTE. 1998.
[1] Roser apropriadamente observa que o acompanhamento pastoral precisa se orientar no sujeito, isto é, o aconselhando. Cf. ROSER, Traugott. Aconselhamento diante da morte e suas implicações para a competência pastoral. In: HOCH, Lothar Carlos; WONDRACEK, Karin H. K. (Orgs.). Bioética; avanços e dilemas numa ótica interdisciplinar do início ao crepúsculo da vida – esperanças e temores. São Leopoldo: Sinodal/EST. 2006. p. 73. Ante o drama da morte, Noé evoca o exemplo da ars moriendi de Lutero, ressaltando a importância do “morrer saudável”, em que o moribundo não é anulado no seu ser, mas em que lhe é permitido participar do processo do morrer. NOÉ, Sidnei Vilmar. A morte bem-aventurada: Lutero e a ars moriendi. In: HOCH; WONDRACEK (Orgs.), 2006, p. 77-84.
[2] CLINEBELL, 2007, p. 62-63. Cf. também SCHNEIDER-HARPPRECHT, Christoph. Aconselhamento Pastoral. In: ______. (Org.). Teologia Prática no Contexto da América Latina. 2. ed. São Leopoldo: Sinodal; São Paulo: ASTE, 1998. p. 317.
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