Analisando a epístola de Paulo aos Gálatas: breve introdução histórica e literária.
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Atos dos apostoloas |
Antes de falar a respeito do trecho de Gálatas que se quer usar para fundamentar biblicamente o tema, liberdade e responsabilidade cristã, é importante considerar alguns aspectos gerais da epístola como um todo, levando em conta aspectos históricos e literários da mesma.
Quanto à data de escrita da epistola de Gálatas pode-se usar como ponto de referência o concílio em Jerusalém que tratou a respeito da circuncisão e do uso das leis judaicas, considerando que Gálatas fala amplamente destes assuntos sem citar qualquer coisa a respeito do concílio de Jerusalém, concluímos que a carta foi escrita antes do concílio, o que nos remete a uma data anterior ao ano 48 d.C.
… Se a data correta do concílio é mesmo 48 d.C., então essa é a data de Gálatas. Parece que o fato de Paulo não fazer qualquer menção do veredicto do concílio de Jerusalém indica que a carta precede esse evento. Mesmo que ele não tivesse feito do concílio o seu principal argumento, é difícil entender por que teria omitido toda e qualquer menção de um reforço tão significativo para seu argumento contra a aceitação de toda a Torá judaica.
Tenney argumenta a respeito da questão da data de escrita de Gálatas da seguinte forma:
A carta não pode ter sido escrita antes de 47 d.C. por causa das datas propostas às viagens de Paulo, nem após o ano 58 d.C., pois esta é a data do aprisionamento de Paulo, e tudo indica que quando escreveu está carta Paulo estava em liberdade.
Provavelmente foi escrita entre os anos 48 e 49 d.C., isso antes do Concílio de Jerusalém. Pois, Paulo não menciona o concílio (At 16.4) para resolver com mais facilidade o assunto e também porque a linguagem usada por Paulo em Gl 1.6 indica surpresa pelo desvio imediato que sucedera do Evangelho. Ou seja, a carta provavelmente foi escrita logo após a visita de Paula a Galácia a suas viagens a esta região terminam por volta do ano 47 d.C.
Ao que sabemos a situação da igreja da Galácia era a seguinte. De Atos 13 até 14 ficamos sabendo que Paulo e Barnabé evangelizaram a região sul da província da Galácia, indo primeiro às sinagogas onde pregavam a judeus e gentios, e em todas as cidades havia aqueles judeus que se opunham a eles.
Depois que Paulo e Barnabé deixam as terras da Galácia, deixando nestas a semente do cristianismo, ao que parece surgem algumas pessoas que se dizem um grupo de cristãos judeus, e chegam nesta região que fora evangelizada por Paulo e Barnabé. Este grupo começa a ensinar que aqueles que aceitam a fé cristã devem se submeter à lei judaica. É daí que surge o escrito de Paulo, frente a estes falsos ensinadores que se dizem cristãos, mas ensinam uma escravidão através da lei, Paulo por sua vez, quer revelar ao grupo de cristãos da Galácia o verdadeiro caminho da salvação em Cristo, o caminho da liberdade conquistada para nós por Jesus na cruz.
De qualquer maneira, o livro foi escrito no período quando Paulo lançava-se em batalha teológica contra o judaísmo…
Quanto ao contexto literário da carta aos Gálatas podemos usar duas abordagens, uma mais técnica e outra visando mais a questão do conteúdo da mensagem da epístola.
De forma técnica, pode-se dividir a epístola aos Gálatas em cinco blocos principais. Em Gálatas 1.1-9, encontras-se a saudação e o motivo pelo qual a epístola foi escrita. Em Gálatas 1.10-2.21, fala-se a respeito da carreira e vida pessoal do apóstolo Paulo, o escritor da epístola. Até Gálatas 4.31, existe um trecho em forma de argumento teológico, que aborda o fato de o ser humano não ser mais escravo, mas sim filho de Deus, e também neste trecho há uma exortação pessoal que aborda o mesmo tema. De Gálatas 5.1-6.10, fala-se a respeito da operação interna do Espírito Santo na vida do cristão e os efeitos éticos e práticos desta operação. E o trecho final, em Gálatas 6.11-6.18, é uma conclusão que une sentimentos pessoais com o sumário do ensinamento da epístola.
A segunda forma para uma analise literária, que visa o conteúdo e a mensagem da epístola pode ser exposta da seguinte forma.
A epístola começa com uma exortação de Paulo sobre o ato de seguir “outro evangelho”, ou melhor, deixar de seguir o evangelho para passar a seguir outro ensinamento que não vem de Cristo, um ensinamento que nos põe diante de leis e costumes que devem ser seguidos em troca da aceitação e do favor divino.
Paulo ainda fala do seguir a lei e da antiga aliança que foi substituída pela nova aliança em Cristo.
Paulo comenta o fato de que pela Lei nunca conseguiremos conquistar nada diante de Deus, pois para tanto teríamos que ser irrepreensíveis, no cumprimento da Lei, coisa que não é possível para o homem pecador. Fala também do exemplo de Abraão que não foi aceito por Deus por causa de sua vida regrada e guiada pela Lei, mas foi aceito por Deus porque cria em Deus. Ainda falando de Abraão, Paulo cita os dois filhos de Abraão.
O filho de escrava, diz Paulo, corresponde aos filhos da antiga aliança, que vivem sob o jugo da Lei, e o filho da mulher livre, diz Paulo, corresponder aos filhos da nova aliança, que vivem na liberdade conquistada por Cristo.
O quinto capítulo vem então para explicar a respeito desta liberdade para qual Cristo nos libertou, fala como os cristãos são livres e como podem agir agora que foram presenteados com esta liberdade.
Deste ponto em diante, Paulo em sua epístola também se preocupa em dar limites para que liberdade não seja corrompida e transformada em libertinagem. O apóstolo preocupa-se em advertir seus leitores para que a liberdade de uma pessoa não invada a de outra e para que a liberdade não seja usada como pretexto para fazer o mal a outras pessoas. E é neste ponto da epístola que fica claro que a liberdade concedida por Cristo acarreta uma responsabilidade para aqueles que usufruem desta liberdade.