De que maneira as referências de Lutero à parábola do Bom Samaritano refletem seu desenvolvimento teológico? Que elementos de sua teologia sofreram alteração e em que esta consistiu?
A parábola do Bom Samaritano funciona como um espelho, refletindo o progresso da compreensão teológica do reformador. Nos primeiros textos, o uso da parábola revela um Lutero ainda fortemente ancorado na teologia medieval. Na medida em que os escritos avançam no tempo, percebe-se o seu avanço e a superação das posições teológicas medievais. Percebe-se, através do exame seletivo e comentado das citações da parábola nas obras de Lutero, que a mesma revela o desenvolvimento da compreensão da doutrina da salvação por parte do reformador e, especialmente, o momento em que começa a fazer clara distinção entre justificação e santificação.
• Primeiras preleções sobre Salmos (1513-1515): Reflete a arcaica teologia da cruz do jovem Lutero. Deus aparece como o Bom Samaritano. A ênfase está em mostrar o que Deus está fazendo em nós. Lutero ainda não faz distinção entre justificação e santificação. O poder da Sua graça está curando o pecador. Lutero ainda segue o pensamento de Agostinho: a salvação é vista como um processo que dura toda a vida. O processo de justificação foi iniciado por Deus. Agora o homem é capaz de cooperar com a obra de Deus. Nesses primeiros textos, o uso da parábola do Bom Samaritano reflete o quanto Lutero era ainda filho do seu tempo, o quanto refletia o contexto teológico daquele momento.
• Preleções sobre Romanos (1515-1516): Esta época, os escritos de Lutero ainda refletem o pensamento de Agostinho. A justificação não foi completada. Deus apenas começou a cura, mas durante o tempo em que a cura está em andamento, ele não condena o ser enfermo. Não se fala que Deus imputa a justiça de Cristo. A expressão “não imputação” é típica do pensamento agostiniano. A fórmula simul iustus et peccator aparece, mas sem o significado pleno que terá no Lutero maduro. Justificação aparece como um processo progressivo através do qual Deus está purificando o pecador. Este início de caminhada terapêutica leva o homem a contribuir na sua cura. Não há uma diferenciação entre justificação e santificação.
• Preleções sobre Hebreus (1517/1518): Lutero segue o pensamento de Agostinho. Segundo a compreensão de Lutero nessa época, as obras do cristão são direcionadas a Cristo, a grande meta do que se produz de bom. Nosso próximo não é aquele que está ao nosso redor, mas aquele que está num nível muito mais elevado, lá em cima, numa posição superior.
• Explanação das 95 teses (1518): As referências à parábola na Explanação das 95 teses são escassas e um pouco diferentes das anteriores. Lutero não usa a parábola de forma alegórica. A menção do tema da parábola não traz novidades quanto ao quadro da teologia de Lutero. Cristo e os santos são colocados como exemplo. Quando o cristão segue o exemplo, está ajudando e sendo ajudado.




